quarta-feira, 27 de junho de 2018

Acasos felizes que geram ECOS

Uma experiência extraordinariamente positiva é como posso classificar este ECOS (versão Coimbra), que estreou no passado sábado 23, na emblemática Praça do Comércio. É a úlltima obra que escrevi, uma peça para seis percussionistas e seis pistas electrónicas, que funciona a três níveis.

Os músicos e os altifalantes dispõem-se em volta do público, em dois círculos ou elipses (conforme a natureza do espaço) concêntricos. Existe, em primeiro lugar, uma partitura, escrita da primeira à última nota, a ser executada por cada instrumentista, que dispõe para o efeito de um pequeno conjunto de instrumentos de percussão. Os 6 instrumentistas executam as suas partes de forma articulada com as 6 pistas, que contêm o material sonoro de origem electrónica.

A peça é dedicada a R. Murray Schafer, um dos meus grandes inspiradores de há longas décadas. De certa forma, ela evoca — pelo local onde teve lugar e pela própria ideia fundadora — o projecto que levámos a cabo juntos, há 15 anos, o Coimbra Vibra!, que tanto sucesso e repercussão internacional obteve.

Todos os sons executados neste ECOS excitam o espaço circundante. Este responde segundo os seus modos de vibração, segundo a sua assinatura acústica, reproduzindo as suas ressonâncias, colorindo os sons com a sua  reverberação natural e multiplicando esses sons com os  ecos que geram. O conjunto destes dois elementos sonoros — sons intrumentais e modos de vibração do espaço — formam um terceiro conjunto sonoro, fruto desta mistura e da combinação imprevisível das diferenças entre as distâncias dos instrumentistas e dos altifalantes, entre si e entre eles e as fachadas que os rodeiam, do momento exacto em que cada som é emitido e de todos os factores que intervêm na propagação do som. Nenhuma execução sucessiva da obra no mesmo local será igual e muito menos, naturalmente, se mudarmos de local. Até no mesmo local a percepção da obra é diferente para quem se situar em pontos diferentes da arena acústica. Cada execução do ECOS é, de facto e como alguém escreveu, uma experiênciaa única e irrepetível.

Uma experiência que se fica a dever a um conjunto de circunstâncias felizes que não queria deixar de assinalar. Começa na circunstância de o JACC, Jazz ao Centro Clube, ter acolhido e produzido a ideia. Da sua formulação, um dia em conversa informal, até à sua estreia no passado dia 23, a concretização deste projecto foi o resultado do apoio sereno e comprometido do José Miguel, da sua equipa e, sobretudo, do paciente, inesgotável e multiforme acompanhamento de toda esta operação pela Catarina Pires, a responsável pelo Serviço Educativo do JACC. Continuou na circunstância feliz da disponibilidade do Laboratório da Paisagem, de Guimarães, para ceder os sinos do Dies Irea. Continuou no impulso decisivo resultante da circunstância, particularmente feliz, de o Pedro Carneiro me ter posto em contacto com os músicos que executaram a obra. E, neste aspecto e como os últimos são os primeiros, ficou-se a dever, em primeiríssimo lugar, à circunstância feliz de ter podido contar com a competência, o empenho e a dedicação do Simantra Grupo de Percussão, constituído por Andrés Pérez, Carolina Saldanha, Leandro Teixeira, Luiz Ferreira, Sérgio Bernardo e Ricardo Monteiro. Para eles fica o meu agradecimento, especial e comovido.

Uma palavra final para os amigos de Coimbra e para os que se deslocaram a Coimbra, especialmente para esta estreia.

(fotos de João Duarte)













terça-feira, 6 de junho de 2017

Tocar

Em música usamos a palavra tocar com significados diversos. Dizemos que tocamos um instrumento ou que tocamos numa orquestra, por exemplo.
Mas tocar, em música, é sobretudo atingir alguém com ela, penetrar com os sons no mais profundo, no mais íntimo da sua alma. Na verdade, nem sabemos muito bem em que parte do eu estamos a atingir alguém quando lhe tocamos com música. Mas sabemos que estamos a atingir um centro vital qualquer.
Tocar em alguém com música não tem figurino, modelo ou hora. Pode acontecer da forma mais inesperada, com os meios mais sofisticados ou da forma mais singela. Acontece a este e a oeste. Podemos estar sozinhos, em frente da fonte da música, a ouvir solitariamente um disco ou acompanhados por milhares, integrados num qualquer ritual colectivo. Tocar por música não envolve qualquer contacto entre as dermes. É uma espécie de sintonia entre uns “chips” invisíveis que a espécie parece possuir.
Eu já fui tocado pela música de outros e já toquei outros com a minha música.
Sabemos quando tocamos em alguém com os nossos sons. É este o sortilégio, perfeitamente inexplicável, da música. É este o poder dos sons. Pode ser a Missa em Si menor de Bach. Mas pode também ser um jovem aluno a improvisar, numa pequeníssima e rudimentar flauta de bambu, uma melodia simples que nos entrou pelo coração dentro.
Também sabemos quando esse fenómeno não ocorre. Quando há resistência ao toque.
Ontem, quando terminou o Ritual Sonoro (cf. mais informação aqui), um dos acontecimentos que assinalou o lançamento da Bienal da Arte da Terra, ela própria uma emanação da candidatura de Guimarães a Capital Verde Europeia e vimos o sorriso e a expressão de felicidade dos participantes, músicos e ouvintes, neste Ritual, sabíamos que todos foram profundamente tocados por aquilo que ouviram. É um daqueles momentos em que sabemos que tocámos em algo que nos transcende como simples mortais.
Estarão profundamente equivocados aqueles que não se apercebem deste poder e cometerão um erro brutal aqueles que, apercebendo-se, escolhem não valorizar correctamente o sentimento que experimentaram.
Ontem, em Guimarães, mais uma vez a música provou que constitui o meio mais poderoso para construir elos entre as pessoas.
Cada vez me convenço mais, de resto, que a Música foi inventada pela espécie humana como forma de a preservar e salvá-la do perigo de extinção...

segunda-feira, 5 de junho de 2017

Os auxiliares


Se dúvidas houvesse sobre o que se está a passar na Terra hoje, elas ficariam dissipadas com esta historieta que vos vou contar. Foi-me transmitida por uma amiga que fez uma alteração no seu percurso de vida e se dedica agora à agricultura biológica.
A nova via resultou da decisão de recuperar uma quinta de família, há muito utilizada apenas como local de recreio.
Durante o tempo em que esteve inactivo, o solo da quinta secou e a fauna tradicional abandonou o local. Algum tempo depois de reiniciada a actividade agrícola, dos solos voltarem a estar ocupados, da flora tradicional e das novas espécies cultivadas os terem repovoado e da fauna (sobretudo os "auxiliares", as espécies que ajudam a fazer a "manutenção", cujos micro sistemas ecológicos voltaram a estar activos) ter regressado, os fins de tarde, outrora silenciosos em resultado da inactividade agrícola e da aridez assim gerada, passaram a ser verdadeiras sinfonias de sinais sonoros da multidão de espécies que voltou, insectos, aves e outros.
A transição do silêncio para a nova paisagem sonora deu-se sem que os proprietários se tivessem dado conta da lenta instalação desse silêncio e da aridez que ele representava. Mas a vida regressada foi logo ouvida.
Notável é a sensiblidade aqui revelada pelo reconhecimento da nova paisagem sonora e das mensagens que ela revela.
Por tudo isto, ajudar a ganhar ou a recuperar esta sensibilidade é uma missão que me continua a parecer vital. Por outro lado, prestar atenção aos sons e aos silêncios da paisagem sonora é hoje mais urgente que nunca. Saber interpretar o que eles querem revelar pode significar a diferença entre a continuação ou o fim da espécie.

quinta-feira, 1 de junho de 2017

Ritual Sonoro - Guimarães, Cidade Verde Europeia

Quando falamos de território, estamos, sobretudo, a pensar num conjunto de pistas de natureza visual que contribuem para dar substância ao conceito. Elementos que mapeiam a realidade física e nos ajudam a lidar com toda essa complexidade. Pode ser um elemento natural ou feito pelo homem. Uma grande montanha, por exemplo. ou um objecto, um marco, um edifício, uma ponte, que une as duas margens de um rio. Um rio, pode ser, ele próprio, definido como uma linha sinuosa que cava uma garganta profunda num acidente orológico. Pode ser o perfil linear de uma árvore ou a mancha, cromaticamente dinâmica de uma floresta. Pode ser a linha recta do horizonte distante que separa os azuis do céu e do mar ou a linha quebrada dos edifícios de uma cidade, interrompida pela curva parabólica de uma ponte.

Outras culturas usam outros elementos, para esse efeito. cheiros ou sons, por exemplo. O efeito subliminar dos cheiros pode ajudar, em certas culturas, o viajante a orientar-se em território desconhecido. O antropólogo Edmund Carpenter descreve como os Inuit desenham em peles, mapas baseados na escuta do mar a atingir as rochas da costa. A partir desses sons surge o mapa com surpreendente e preciso detalhe. Na prática nenhum dos sentidos tem total primazia, embora haja diferenças culturais profundas e constragimentos naturais no peso relativo que eles têm na percepção do ambiente envolvente e na criação da noção de território.

Passará muitas vezes despercebido o peso da escuta na percepção que temos, aqui no Ocidente, desse ambiente envolvente e no seu efeito no mapeamento do território. Estamos de tal maneira habituados a olhar o território e de tal forma condicionados pela realidade de mapas, textos, ecrãs, desenhos, fotografias e tantos outros elementos de natureza visual para o representar, que poderemos não nos dar conta da importância que o som tem na construção deste conceito. Mas ela é inequívoca.

O som fornece-nos pistas fulcrais sobre o ambiente circundante. E funciona na ausência da visão. Os sons podem constituir marcos e podem-nos dar indicações sobre distâncias, sobre a natureza dos materiais, as deslocações e o estado dos elementos móveis da paisagem. O que nos permite, por exemplo, juntar outros factores, não tangíveis, a essa noção de território. O vento não se vê, mas é possível definir um território como ventoso a partir do efeito sonoro do seu regime de ventos. O som pode ser uma utensílio precioso para lidar com elementos intangíveis ou efémeros dessa paisagem.

O sino é simultaneamente um marco, um símbolo e uma ferramenta fulcral desse processo. O sino marca um território. O seu perfil sonoro foi outrora o elemento que delimitava a fronteira da paróquia. O seu tamanho e a sua potência sonora ajustavam-se a essa função. Simultaneamente, o sino leva consigo, através do território que o seu perfil sonoro cobre, a sua mensagem e constitui a presença simbólica de quem a determina. Uma espécie de tele-bandeira.

Linhas, manchas cromáticas, formas geométricas, mapas, fotografias, itinerários e relatos de viagem, são representações visuais de realidades físicas que nos ajudam a construir mentalmente e a orientarmo-nos num território.

Não é, pois, por acaso que o território e o sino se encontram associados neste Ritual Sonoro. O centro do território deste ritual será o Largo da Oliveira, em Guimarães. Os sinos da sua igreja serão o fulcro sonoro desta intervenção. A par dos sinos da Oliveira outros sinos, de vários tamanhos e qualidades, das igrejas do centro e das vilas, os sinos de mão e pequenos sinos individuais, fixos e móveis, dos grupos participantes neste ritual, far-se-ão ouvir. E enquanto se propaga esse som simbólico e sagrado, proveniente de vários pontos do território concelhio, no Largo, um coro fará ouvir um canto, uma oração Navajo, que nos fala justamente de território, das direcções e das extensões que esse território contém.

Um Ritual Sonoro inserido num conjunto de actividades denominado Greenweek, inciativa que faz parte da candidatura de Guimarães a Capital Verde Europeia, de onde emana a Bienal da Arte da Terra que este Ritual, celebração do Território e do Sino, pretende simbolizar.

O Ritual Sonoro vai ter lugar no dia 4 de junho de 2017, pelas 12:45h.



terça-feira, 27 de setembro de 2016

Os dois relojoeiros


Havia em tempos longínquos, na cidade de La Chaux-de-Fonds, dois relojoeiros muito apreciados pela especial qualidade dos relógios que produziam. Havia uma certa disputa até entre eles. 
Não faltavam artífices distintos nesta cidade, que a pouco e pouco começou a tornar-se muito conhecida por isso. Aqui se fabricavam os melhores e mais precisos movimentos, as mais robustas e mais sólidas caixas, os mais belamente decorados mostradores. Os relojoeiros de La Chaux-de-Fonds orgulhavam-se da excelência dos seus conceitos, da quase sobre-humana exactidão dos seus métodos de trabalho, do requinte extremo dos seus preciosos acabamentos, mas era no rigor das medições que os seus relógios proporcionavam que colhiam um sentimento especial. Um ano era um ano, um mês era um mês, um dia tinha vinte e quatro rigorosas horas, cada hora tinha sessenta precisos minutos, cada minuto era medido em sessenta completos segundos e cada segundo era um instante exacto, cuja absoluta duração era, não só, certa como mais nenhuma outra, mas, sobretudo, imutável. Um segundo era um segundo num relógio saído das mãos de um destes relojoeiros, e continuaria a sê-lo muitos anos depois, apesar do incessante movimento de todo aquele mecanismo. Um segundo era uma categoria imutável, preciosa, segura. O Tempo parecia, graças a estes mecanismos invulgares, uma categoria absoluta, inalterável, implacável no seu inexorável progresso, mas dócil e estranhamente confortável na precisão com que os seus instantes fundadores poderiam ser assim medidos.
Entre os muitos relojoeiros capazes de fabricar tão magníficas máquinas, estes dois  eram reconhecidamente os melhores e especialmente apreciados porque a precisão dos seus mecanismos e a extrema beleza dos seus produtos excediam as de todos os outros. 
Um dia um estranho fenómeno atingiu estas duas manufacturas. Subitamente os relógios que estavam prontos a serem expedidos para os clientes, descontrolaram-se. Uma hora podia durar um segundo, um segundo prolongava-se por dias. Mais estranho, a hora recuava, acelerava, oscilava, por vezes parava, estranhamente. Um instante parecia suspender-se, por vezes, não se conseguindo adivinhar qualquer movimento. O Tempo tinha passado a controlar os relógios.
Os relojoeiros observavam, inspecionavam, testavam. Não havia dúvida: o Tempo controlava os instrumentos que o tentavam medir. Nunca foi possível perceber por que razão o Tempo decidiu assim tomar conta dos mecanismos dos relógios e, sobretudo dos que tinham sido fabricados por este dois relojoeiros, em particular. Porquê estes dois? Sabe-se que na ânsia de salvar as suas manufacturas eles procuraram afanosamente explicações, elaboraram teorias, procuraram retomar o controlo. Sabe-se que acabaram por desistir. Sabe-se também que decidiram, no final, abraçar as possibilidades que o Tempo lhes estava assim a proporcionar. 
Sabendo que eram os melhores relojoeiros de La Chaux-de-Fonds, tendo ficado a conhecer, como mais ninguém, o poder que o Tempo tem, decidiram render-se-lhe. Esse Tempo, que eles teimosamente procuraram medir com a maior precisão possível, era afinal uma entidade com poder próprio, que não se deixava subjugar nem conter num simples mecanismo, por mais preciso e belo que pudesse ser, que ditava, ele sim, as suas próprias leis. O Tempo não se deixa medir. 
Os dois relojoeiros decidiram então fechar as suas manufacturas, mas antes fabricaram um exemplar único deste relógio que mostrava o tempo que o Tempo dava e oferecê-lo ao outro. Cada um traz agora no pulso o relógio que o outro lhe ofereceu e vive a vida ao ritmo que o Tempo dita. Um tempo sem a falsa e impraticável precisão que os relógios que fabricaram toda a vida lhes proporcionava.

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

A Marina




As manifestações de apreço que me têm sido transmitidas a propósito desta ópera TMIE, standing on the threshold of the outside world são invariavelmente do tipo "parabéns, muito bom [pausa dramática] e a cantora! Que fantástica, como é que ela conseguiu meter aquela música toda na cabeça, e que força é preciso ter para estar uma hora, assim, sozinha em palco..."
Pois bem, estas apreciações sobre a Marina pecam por um motivo: ficam muito aquém dos elogios que ela merece.
Eu sei porque acompanhei e orientei, no contexto do papel que me cabia, o trabalho dela e, digo-vos, não consigo encontrar palavras que traduzam exactamente o elogio que gostava de lhe fazer e que ela merece.
Eu sei porque passei com ela horas e horas de ensaio, partilhei pausas, fui verificando momento a momento a evolução e os resultados do nosso processo de trabalho. A obra foi nascendo, foi ganhando vida, porque a Marina lhe deu vida!
Sei-o, digo-o categoricamente, como mais ninguém.
Claro que se poderia falar do inexcedível talento, da imensa frescura e luminosidade que irradia a sua presença, da incrível capacidade vocal, da surpreendente versatilidade, da exigência e meticulosidade com que encarou este trabalho, do imenso "profissionalismo", da inteligência, da vivacidade, enfim. Tudo isso seria e é verdade. Mas citar apenas estes factores peca por defeito e levar-me-ia a cometer uma tremenda injustiça. A Marina é muito mais do que isto que referi. É tudo isto, sim, e mais tudo aquilo que faz com que tudo isto, quando comparado com tudo aquilo, não passe de coisa simplesmente normal.
Acreditem, eu sei. E repito-o categoricamente.

TMIE, standing on the threshold of the outside world (Texto da folha de sala)




No limiar do mundo exterior

Não, não se trata de uma gralha. TMIE é o acrónimo de Transmembrane Inner Ear (transporte trans-membranário do ouvido interno). É um gene, um dos elementos inicialmente activos na formação do ouvido interno, que está presente na cóclea e faz parte do complexo processo de transdução electromecânica do som para o nervo auditivo.
O mau funcionamento deste gene é causa de surdez. O seu funcionamento, em condições normais, medeia a passagem entre o mundo sonoro exterior — o das variações da pressão sonora do ar que nos chega ao ouvido interno e o nervo auditivo — até a informação, finalmente, chegar ao cérebro e ser por ele processada.
TMIE é título escolhido para esta obra como um símbolo da ligação do nosso mundo exterior ao mundo interior.
Em TMIE duas deusas, de mitologias diferentes, têm uma conversa improvável sobre os seus universos pessoais. Meretseger, aquela que ama o silêncio, desvenda-nos o que ouve por detrás desse silêncio. Selene, aquela que percorre os céus no seu carro de prata puxado por cavalos, adivinha os ritmos dos astros que vai descobrindo nestas suas deambulações. Um Corifeu ouve o que as duas deusas dizem, procura interpretar a essência das suas palavras e faz-nos a sua síntese.
Os três representam personagens reais.
Meretseger é Beverly Biderman, a canadiana que aos 46 anos, depois de uma surdez profunda desde os 12, decidiu submeter-se a uma operação de colocação de implantes cocleares. Recuperou a audição e teve de reaprender a ouvir. Selene é Henrietta Leavitt, a astrónoma americana. Descobriu a forma de fazer esta coisa quase inimaginável: medir o universo. Henrietta era surda, mas, através da fotometria, parecia ouvir o que os astros lhe diziam. Os seus ritmos, as suas palavras. O Corifeu é Empédocles, o filósofo pré-socrático que procurava as categorias essenciais do Universo e que foi o autor da primeira teoria sobre a natureza do ouvido e da audição. O ouvido: um sino, um ramo carnudo.
Relacionamo-nos com o ambiente que nos rodeia. Perante os sinais e efeitos que dele emanam e a nossa capacidade de os interpretar, o que resta? Consciência? Livre arbítrio? Alma?
Francis Crick sugere que uma parte do cérebro se ocupa a planear acções futuras. Temos consciência das decisões que tomamos em resultado desse planeamento, não do planeamento em si.
Henrietta Leavitt ouvia ou não realmente as estrelas? "Ouvimos com o cérebro" diz Biderman. O implante coclear produziu um "truque da mente" que lhe permitiu voltar a ouvir. "Não ouço como vós" acrescenta Biderman. Quem sabe o que ouve, de facto, Beverly Biderman? Como poderá saber ela o que cada um de nós ouve?
(O libreto desta opera está disponível em http://carlosalbertoaugusto.org)

Agradecimentos:
Um agradecimento, em primeiro lugar, a Beverly Biderman e a George Johnson pela forma generosa como acolheram este projecto. O libreto de TMIE baseou-se sobretudo em dois livros destes dois autores. De Biderman, Wired for Sound: a journey into hearing (1998), recentemente revisto e disponível em formato ebook. De Johnson, Miss Leavitt's Stars: the untold story of the woman that discovered how to measure the Universe (2005). As fontes utilizadas para o libreto completam-se com versões dos Fragmentos de Empédocles, coligidos a partir de traduções diversas, e num fragmento do soneto Evolução de Antero de Quental.
A música de TMIE foi desenvolvida e produzida a partir da ideia da sonificação de curvas de roleta e espirais. Este trabalho foi totalmente realizado com o Kyma, o gerador e processador digital da Symbolic Sound, a quem também ficam aqui expressos os meus agradecimentos.
Ficam também agradecimentos institucionais. À Miso Music Portugal e à Widex em primeiro lugar, por terem contribuído de forma definitiva para tornar TMIE uma realidade. Agradecimentos especiais também à Avantools e ao Teatro da Rainha, pelo apoio imprescindível que deram a este projecto.
Por detrás das instituições estão os indivíduos. Agradecimentos sentidos a Miguel Azguime, Tiago Nunes, Paulo Jorge Ferreira, Fernando Mora Ramos, Ana Pereira, Filipe Gill Pedro, João Pedro Leão, Jorge Simões da Hora, Miguel Lourtie e Margarida Vargas.
E como os últimos são os primeiros, fica por fim um destaque especial e um agradecimento infinito a Marina Pacheco. O entusiasmo e o superior talento que colocou ao serviço deste desafio e a energia que lhe dedicou seriam suficientes para me deixar em eterno défice de gratidão. Acresce que, como se tudo isto fosse pouco, é ela que dá a vida que faltava a esta obra. É o seu rosto, mas também a sua alma.

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Uma ópera sobre a espiral


"TMIE, on the threshold of the outside world" é uma nova ópera de Carlos Alberto Augusto. Marina Pacheco, admirável soprano, vai estrear a obra no próximo dia 8 de setembro no O'culto da Ajuda.
TMIE tem um libreto baseado no livro de Beverly Biderman "Wired fro Sound: a journey into hearing" e no livro de George Johnson "Miss Leavitt's Stars: The Untold Story of the Woman Who Discovered How to Measure the Universe", assim como excertos do filósofo Empédocles e do poeta Antero de Quental.
Biderman é a canadiana, surda profunda desde os 12 anos, que aos 46 se submeteu a uma operação de colocação de implantes cocleares e nos descreveu o processo complexo de reaprendizagem da audição. Nessa descrição da reaprendizagem adivinhamos o que é a aprendizagem . Leavitt é a astrónoma, também surda, que criou as bases de trabalho que permitiram esta coisa espantosa que é conseguir medir o universo. Fê-lo enquanto ouvia o "ritmo das estrelas". Empédocles é o filósofo grego que criou a primeira teoria sobre o ouvido e a audição. 
A surdez é de facto um tema central desta ópera, mas o trabalho aponta também noutras direcções, designadamente a nossa relação com a realidade que nos rodeia (exterior e a nossa própria realidade física interna), mas sobretudo o mundo dos nosso pensamentos e da nossa consciência, atrever-me-ia a dizer, da nossa alma. Das espirais da cóclea às espirais das galáxias.
O soprano Marina Pacheco interpreta três papéis diferentes nesta obra, cuja música, totalmente electrónica, foi concebida com a ajuda do sistema Kyma e se baseia na sonificação de curvas de roleta. Um sistema de 10 altifalantes cria o espaço acústico deste TMIE. Um video, especialmentee produzido para este trabalho serve simultaneamente de cenário e de iluminação. 
Aqui encontrará mais informação sobre esta obra..
Depois da estreia em Lisboa "TMIE" entrará em digressão.


quinta-feira, 26 de maio de 2016

O Manel

"Acredito firmemente que sem especulação não existe observação de qualidade e original", terá dito Darwin.
As expressões faciais de bebés e crianças têm sido objecto de análise por numerosos cientistas. Darwin é, ele próprio, uma figura de referência no domínio da análise das expressões faciais em geral, e este tema, em particular, o da expressão facial das crianças, não lhe escapou à atenção.
Tudo isto vem isto a propósito de uma situação que aconteceu ontem comigo.
Eu conto.
Estava numa esplanada com uma amiga. Na mesa ao lado sentava-se uma jovem mãe com um bebé e um casal que imaginei que fossem os avós do bebé.
O bebé estava virado para mim, mas entretido na brincadeira com a mãe e só a ela parecia prestar atenção. De repente os nossos olhares cruzaram-se. A expressão do bebé indicava claramente uma reacção que me deixou especialmente intrigado. Passados escassos segundos, o bebé voltou a buscar o meu olhar e novamente lhe observei uma expressão facial especial.
Fiquei curioso, a imaginar qual teria a razão para aquele comportamento que me pareceu francamente fora do normal. Nem a expressão facial parecia própria de um bebé, ainda de mama como aquele era, e muito menos me parecia normal aquela clara insistência do olhar e a reacção subsequente.
De repente fez-se luz. Lembrei-me que talvez um mês antes tinha estado na brincadeira com ele num restaurante. Era o Manel! Algo na nossa brincadeira teria deixado uma qualquer marca porque lembro-me que, depois de terminada a refeição, enquanto se ia embora, ao colo do pai, o bebé se despediu de mim com um aceno que foi, aliás, notado pelos presentes. 
Confirmei com a mãe. Sim, tinham estado no restaurante nessa noite, ela lembrava-se de todo este episódio perfeitamente.
Ora bem: ontem o bebé reconheceu-me. Para minha vergonha confesso que, na altura, não me lembrei, eu, de tudo isto. Mas recordo-me que, quando notei aquele seu primeiro olhar, me passou pela cabeça que havia qualquer coisa de familiar no rosto daquela criança. Foi a insistência dele, como que a dizer-me "então não te lembras de mim?", que me fez recordar o que se tinha passado naquela noite.
Esta história não tem conclusão ou "moral". Mas quem me lê irá decerto poder extrair muitas conclusões e descobrir a "moral por detrás de tudo isto. E irá escolher decerto a que mais lhe convier.

sábado, 30 de abril de 2016

Paulo Varela Gomes

Uma singelíssima homenagem a alguém que admirei muito. Morreu hoje.
Escrevi dois posts neste blog inspirados pelas suas crónicas.  Estão aqui e aqui.
Embora não o conhecesse pessoalmente, tocou-me muito particularmente esta perda.