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A Cantata de Évora

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  U m telefone que toca. Passaram vinte anos. A surpresa do contacto. Do outro lado vem uma aliciante proposta: criar o envolvimento sonoro de um novo centro interpretativo, em Évora, instalado num espaço de características únicas, com muito material informativo para lá colocar. O “caderno de encargos” que me é transmitido, encerra um enorme e complexo desafio. O centro interpretativo precisa de som que lhe "acrescente" espaço e lhe alivie a pressão informativa, tornando-o mais ligeiro sem lhe comprometer. função. Som que substitua, na medida possível, parte dos habituais dispositivos usados para exibir este género de conteúdos, painéis, ecrãs. Mas som que funcione também como uma espécie "sala de espelhos" e, ao mesmo tempo, conferindo virtualmente mais dimensão ao espaço expositivo, ajudar a transmitir informação que, de outra forma, iria sobrecarregar   e saturar esse espaço. O telefonema foi de Cármen Almeida, coordenadora geral do projecto, que me transmite o c...

Dizer por música

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Victor Hugo disse da música que ela expressa algo que não pode ser dito, mas sobre o qual não se pode ficar calado. Esta economia da música estende-se, creio, a muitas outras manifestações do espírito humano. Por outras palavras, há música em muitos dos nossos actos e actividades. Há música nas outras artes, há música na ciência, há mesmo música  no dito, ou seja, podemos expressar algo que não pode ser dito  naquilo que é efectivamente dito. Não há aqui jogos de palavras. Podemos escrever ou  pintar  com música. Talvez esteja aí a origem daquela expressão "isso é música para os meus ouvidos!" Há, com efeito, situações, factos, pessoas que são música, neste sentido que Victor Hugo lhe quis dar. Há, desta forma  também , é fácil  percebe-lo,  música nas  palavras  de Antonio Tabucchi. A Antonella Barletta juntou-se finalmente a nós, completando assim a equipa que produz "Mulher de Porto Pim", a leitura encenada que viemos realizar à...

Os verdadeiros criminosos

Se dúvidas houvesse sobre o poder da música este exemplo dissipava-as. Já aqui há algum tempo referi um outro exemplo maravilhoso que ilustra bem o poder da música e a capacidade que esta arte tem para forjar um sociedade melhor. Este outro exemplo, vindo agora dos E.U.A., demonstra mais uma vez esse poder. Pergunto-me o que teria acontecido se os fundos gastos actualmente em programas como este tivessem sido usados em programas escolares de formação musical, na altura certa, de todos estes detidos. Não é um problema americano. A forma como, em geral, as artes são encaradas nas sociedades avançadas é patética. Os exemplos de cortes ou supressão de programas multiplicam-se um pouco por todo o lado, uns piores do que outros. Pergunto-me que noção terão os actuais responsáveis pelos sectores da Cultura e Educação do nosso país do significado que têm os cortes que se estão a efectuar nestas áreas para o nosso futuro? Pergunto-me o que pensa o país destes cortes...? Pergunto-me se o...

Música: um investimento de futuro

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Rua Garrett, Lisboa. Foi quinta feira passada, seriam umas 17h. Um duo de violino e violoncelo fazia escalas para aquecer. Iam começar o concerto. O mendigo, sentado logo ali ao lado, fazia sinais para os transeuntes, apontava para a boca, parecia querer dizer que tinha fome. Os músicos, impecavelmente vestidos, começaram a tocar. O mendigo, andrajoso, implorava ajuda. A música parecia acompanhar os gestos suplicantes do mendigo. Uma inusitada e súbita pareceira, ou um duro exemplo de um estranho, mas real, reality show .  Ao passar, ouvi um desses transeuntes a dizer para a mulher “ao menos aqueles fazem alguma coisa de útil”. “La musica è tutta relativa,” como lembrava Sanguinetti... E Vangelis dizia numa entrevista à Al Jazeera que “aquilo que mais precisamos no nosso mundo hoje é de investir em beleza.”  E eu aposto que, no fim da “temporada,” o mendigo vai abrir os olhos, juntar o dinheiro todo que ali obtém à custa do acompanhamento que arranjou para as suas...