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Os auxiliares

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S e dúvidas houvesse sobre o que se está a passar na Terra hoje, elas ficariam dissipadas com esta historieta que vos vou contar. Foi-me transmitida por uma amiga que fez uma alteração no seu percurso de vida e se dedica agora à agricultura biológica. A nova via resultou da decisão de recuperar uma quinta de família, há muito utilizada apenas como local de recreio. Durante o tempo em que esteve inactivo, o solo da quinta secou e a fauna tradicional abandonou o local. Algum tempo depois de reiniciada a actividade agrícola, dos solos voltarem a estar ocupados, da flora tradicional e das novas espécies cultivadas os terem repovoado e da fauna (sobretudo os "auxiliares", as espécies que ajudam a fazer a "manutenção", cujos micro sistemas ecológicos voltaram a estar activos) ter regressado, os fins de tarde, outrora silenciosos em resultado da inactividade agrícola e da aridez assim gerada, passaram a ser verdadeiras sinfonias de sinais sonoros da multidão de espéci...

Um exercício de inteligência e de cidadania

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Desculpem-me vir aqui, de certa forma, falar em causa própria, mas é inevitável.  Refiro-me à exposição   Os Inquéritos [à Fotografia e ao Território] ∙ Paisagem e povoamento , inaugurada no dia 17 de outubro, no Centro Internacional de Artes José de Guimarães e aberta, para a sua visita, até ao dia 31 de janeiro. Há mais, mas, no meu entender, são três os argumentos principais para não perder esta mostra.  Em primeiro lugar, trata-se de celebrar o triunfo da fotografia como elemento mediador entre o espaço real e o imaginário. Apesar de esta exposição incluir muitos outros elementos (algumas verdadeiras preciosidades, raramente ou nunca vistas antes) que ajudam esta mediação  —  mapas, relatórios, fichas, atlas, filmes, sons  —  é na fotografia, neste seu papel de mediador, nas potencialidades e nos limites que carrega para o exercício dessa função, na sua aura e no seu sortilégio, que se situa o coração deste projecto ímpar. ...

A paisagem sonora portuguesa em análise

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Um novo livro sobre a paisagem sonora portuguesa, o primeiro sobre este tema a ser editado no País, acaba de ser publicado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, na sua colecção Ensaios . Ruído, silêncio e música, a paisagem sonora harmoniosa e a disfuncional. Como soa Portugal? Estarão os portugueses dispostos a ouvir? Uma obra essencial para quem se interessa pelos temas do som e da comunicação em Portugal. Disponível também aqui .

Cheira a primavera!

Não longe da cena do episódio da Rua Garrett, que mencionei no post anterior , subia eu a Rua das Flores, ouço e vejo ao longe uma garota de uns dez anos, mochila às costas, certamente a caminho de casa depois das aulas. Vinha descendo a dita rua, cantarolando exuberantemente, exprimindo, sem ambiguidades, uma enorme e notória alegria e felicidade. A vozita da miúda reverberava entre os prédios, ali mesmo à saída do parque de estacionamento do Largo Camões. Não me recordo há quanto tempo me não emocionava tanto com um acto tão simples, genuíno e espontâneo como este.

Sons e silêncios

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No último post referi um texto de Paulo Varela Gomes na sua habitual coluna do Público “Cartas do Interior”. PVG é um autor com o qual me identifico (suponho que seja uma mistura de sintonia ideológica e geracional), com o qual partilho muitas ideias e é leitura imprescindível aos sábados.  Não me surpreende a qualidade da sua escrita e a renovada originalidade dos temas que aborda, mas quando pensava que neste domínio nada me conseguiria afastar desta expectativa cómoda a que me habituou, eis que uma série de artigos em que aborda, mesmo que de forma por vezes indirecta, um tema que me é particularmente caro —o som e o silêncio— me vem desassossegar .  Recomendo a todos os que se interessam por esta matéria a leitura da crónica de 19/11, justamente intitulada “Silêncio”, a de 26/11 (já referida no post anterior) intitulada “Angelus” e, finalmente, a de 10/12 intitulada “Tempos Mortos”.  Raramente os autores da minha área da comunicação acústica têm uma visão t...

Viver ao vento

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As actividades humanas que se exercem em comunhão com o ambiente que nos rodeia dão-nos uma perspectiva muito rica da realidade. Uma reportagem recente da TSF (inserida na rubrica “Ouvir e verão”) dava conta de um moinho ainda em funcionamento na região do Bombarral.  Os moinho são destas tecnologias que vivem do ambiente e devolvem o que lhe cobraram com uma preciosa mais valia. Os moinhos utilizados para a moagem do grão são máquinas impressionantes, belas e perfeitas na economia e na eficácia do seu funcionamento, admiráveis na forma harmoniosa como servem o seu propósito. Os moleiros são seres que, de forma consciente ou não, reflectem tudo isto e revelam, no meio de todo este complicado fluxo de energias benfazejas, uma serena mas profunda sabedoria.  O som tem um papel crucial no modo de funcionamento dos moinhos. Internamente qualquer peça revela a correcção do seu funcionamento pelo som que emite. O moleiro sabe ouvir e descodificar o som dos mecanismos do seu...

Natureza morta?

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A zona onde esta foto foi tirada tinha uma plantação de pasto, onde habitualmente passava o dia um rebanho que nunca consegui perceber de onde vinha. O rebanho com os seus chocalhos era um dos elementos principais que marcava a paisagem sonora desta zona. Falo-vos de uma zona situada no limite nascente do concelho de Cascais, em Carcavelos, a escassos 20 km de Lisboa, praticamente à beira da Marginal da costa do Estoril. Na época própria toda essa zona ficava coberta de papoilas que pontilhavam o dourado do pasto, que mais tarde era ceifado e transformado em molhos que eram transportados dali não sei bem para onde. No local da "seara" (era assim que lhe chamávamos) foi agora erguido um enorme bairro. A papoila da foto e outras teimaram em sair debaixo dos paralelepípedos que passaram a cobrir as zonas exteriores do bairro. Teimosas estas papoilas...!