segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Cascais, qualidade de vida e artilharia

Um dia destes, há pouco tempo, de passagem pela minha terra natal, ouvi aquilo que me pareceu um ataque de uma brigada de artilharia pesada. Não seria de admirar porque Cascais foi sede de um regimento de artilharia anti-aérea. Mas, algo me pareceu estranho uma vez que o dito regimento foi desactivado há bastantes anos e a artilharia não dispara assim... 
Fui ver. 
Aproximei-me da “peça” que bombardeava a outrora pacata vila com todo aquele fogo de barragem. O fragor prenunciava batalha sem quartel... 
Era afinal um ensaio de som —um sound check como dizem os peritos nestas coisas...— que decorria no palco das Festas de Cascais. O meu pequeno, mas, ainda assim, bastante preciso sonómetro marcava num instante de maior alívio dos ouvidos —enquanto eu preparava o meu equipamento a banda tinha optado por ensaiar o seu momento unplugged...— 99.2 dB, como a foto mostra. 
O assunto não mereceria grande reportagem se o dito ensaio de som estivesse a decorrer numa daquelas câmaras com grossas paredes duplas de betão, enterradas no subsolo a várias centenas de metros, isoladas da civilização e destinadas a conter explosões nucleares. 
Mas, não! O palco onde tudo isto decorria situava-se não longe do gabinete do senhor presidente da edilidade, mesmo em frente de um dos maiores hotéis da zona —certamente para enorme gáudio dos turistas que lhe ocupavam na altura os quartos e tivessem arriscado um momento de descanso...— e no meio de muitos outros estabelecimentos de restauração e numerosas  residências. 
Bem lá no meio (!), no local onde o gigantesco palco estava encafuado, havia ainda uns pequenos quiosques de venda de souvenirs. Um desses quiosques ficava mesmo ali à “boca de cena”. Está tapado pelo sonómetro na foto.
Os vendedores trabalhavam com os dedos espetados nos ouvidos. Os clientes, em vez de souvenirs, levavam marteladas dolorosas nos seus frágeis tímpanos enquanto reclamavam, gritando em vão de goela escancarada, que só queriam colares de conchinhas. Vá-se lá, de facto, perceber estes turistas...
Imagino a cadeira do senhor presidente da câmara, e certamente o próprio senhor presidente Capucho, dando um quase imperceptível salto a cada um dos pequenos  sismos provocados por aquela vibração ritmada provinda do palco das Festas de Cascais. Vibração essa logo  transmitida a todo o Largo da Câmara e edifícios em redor de modo a que ninguém ficasse indiferente. O pior, de facto, é a indiferença. 

Cascais muito à frente!

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