Sortilégios da Graciosa




Em "Caça à baleia" – um dos contos de Tabucchi que compõem esta leitura encenada a que demos o título genérico de "Mulher de Porto Pim" – o vigia grita, a dada altura, "baleia à vista!"
Este grito fazia parte da complexa "semiologia dos baleeiros". Ouvia-se no navio quando era chegado o momento de iniciar as operações da caçada.
Em terra, a proximidade da baleia traduzia-se por um sinal sonoro diferente. O grito precisava de chegar mais longe. Um som cumpria essa função. O som de um foguete, especialmente criado para este efeito, estralejava indicando a proximidade da baleia e simultaneamente a sua localização. Mais tarde uma "buzina", uma espécie de sirene accionada manualmente, dava o alerta. A localização e estado da baleia eram, neste caso, indicados por um sistema complementar de bandeiras.
Depois surgiu a "fonia". A nova tecnologia aumentou o raio de alcance da "semiologia dos baleeiros", transformando-a, dando-lhe a precisão e a sofisticação que o uso da linguagem proporciona. A informação necessária podia agora ser projectada a uma maior distância, sem condicionamentos de direcção, independente das condições de visibilidade e sem as ambiguidades semânticas de foguetes e buzinas.
Sofisticada e precisa é a linguagem de Tabucchi. Transforma-nos. Fizemo-la viajar até aqui aos Açores . À beira das águas que alimentaram a sua gestação, tentamos, nós também, na forma desta leitura encenada, ir mais longe, sem constrangimentos de direcção ou de visibilidade, dando voz a uma linguagem que ao som destas águas se torna particularmente cristalina.
Sortilégios da Graciosa .

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