quarta-feira, 27 de junho de 2018

Acasos felizes que geram ECOS

Uma experiência extraordinariamente positiva é como posso classificar este ECOS (versão Coimbra), que estreou no passado sábado 23, na emblemática Praça do Comércio. É a úlltima obra que escrevi, uma peça para seis percussionistas e seis pistas electrónicas, que funciona a três níveis.

Os músicos e os altifalantes dispõem-se em volta do público, em dois círculos ou elipses (conforme a natureza do espaço) concêntricos. Existe, em primeiro lugar, uma partitura, escrita da primeira à última nota, a ser executada por cada instrumentista, que dispõe para o efeito de um pequeno conjunto de instrumentos de percussão. Os 6 instrumentistas executam as suas partes de forma articulada com as 6 pistas, que contêm o material sonoro de origem electrónica.

A peça é dedicada a R. Murray Schafer, um dos meus grandes inspiradores de há longas décadas. De certa forma, ela evoca — pelo local onde teve lugar e pela própria ideia fundadora — o projecto que levámos a cabo juntos, há 15 anos, o Coimbra Vibra!, que tanto sucesso e repercussão internacional obteve.

Todos os sons executados neste ECOS excitam o espaço circundante. Este responde segundo os seus modos de vibração, segundo a sua assinatura acústica, reproduzindo as suas ressonâncias, colorindo os sons com a sua  reverberação natural e multiplicando esses sons com os  ecos que geram. O conjunto destes dois elementos sonoros — sons intrumentais e modos de vibração do espaço — formam um terceiro conjunto sonoro, fruto desta mistura e da combinação imprevisível das diferenças entre as distâncias dos instrumentistas e dos altifalantes, entre si e entre eles e as fachadas que os rodeiam, do momento exacto em que cada som é emitido e de todos os factores que intervêm na propagação do som. Nenhuma execução sucessiva da obra no mesmo local será igual e muito menos, naturalmente, se mudarmos de local. Até no mesmo local a percepção da obra é diferente para quem se situar em pontos diferentes da arena acústica. Cada execução do ECOS é, de facto e como alguém escreveu, uma experiênciaa única e irrepetível.

Uma experiência que se fica a dever a um conjunto de circunstâncias felizes que não queria deixar de assinalar. Começa na circunstância de o JACC, Jazz ao Centro Clube, ter acolhido e produzido a ideia. Da sua formulação, um dia em conversa informal, até à sua estreia no passado dia 23, a concretização deste projecto foi o resultado do apoio sereno e comprometido do José Miguel, da sua equipa e, sobretudo, do paciente, inesgotável e multiforme acompanhamento de toda esta operação pela Catarina Pires, a responsável pelo Serviço Educativo do JACC. Continuou na circunstância feliz da disponibilidade do Laboratório da Paisagem, de Guimarães, para ceder os sinos do Dies Irea. Continuou no impulso decisivo resultante da circunstância, particularmente feliz, de o Pedro Carneiro me ter posto em contacto com os músicos que executaram a obra. E, neste aspecto e como os últimos são os primeiros, ficou-se a dever, em primeiríssimo lugar, à circunstância feliz de ter podido contar com a competência, o empenho e a dedicação do Simantra Grupo de Percussão, constituído por Andrés Pérez, Carolina Saldanha, Leandro Teixeira, Luiz Ferreira, Sérgio Bernardo e Ricardo Monteiro. Para eles fica o meu agradecimento, especial e comovido.

Uma palavra final para os amigos de Coimbra e para os que se deslocaram a Coimbra, especialmente para esta estreia.

(fotos de João Duarte)













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