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Uma nova orquestra

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Foi na passada quinta feira que a nova Orquestra de Câmara Portuguesa fez a sua primeira apresentação pública. Um projecto concebido e dirigido por Pedro Carneiro, destinado a dar um enquadramento ao mais alto nível, institucional e artístico, aos inúmeros jovens talentos formados nas escolas de música portuguesas. A OCP é o fruto do talento sem limites, da inesgotável capacidade de trabalho e da tenaz preserverança de Pedro Carneiro que juntamente com a sua equipa ergueu este projecto. É também o resultado do inultrapassável amor pela música que o Pedro Carneiro e os seus colaboradores demonstram. A OCP é uma obra de amor e o seu exemplo serve para mostrar, antes de tudo o mais, que em matéria de música, como em tudo o resto, é preciso amar para começar a fazer obra. Quantas pessoas amam verdadeiramente aquilo em cujo envolvimento se mostram empenhadas? À OCP ao seu director musical e à sua equipa eu desejo todas as venturas do mundo.

Tempo suspenso

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É a segunda referência a Stockhausen que faço num relativamente curto lapso de tempo (ver aqui uma outra nota na versão inglesa dos Fragmentos, sobre o 'Hymnen'). Falando de tempo, fui ontem ouvir 'Stimmung' de Stockhausen ao Mosteiro dos Jerónimos. Um concerto integrado na edição de 2006 do festival Música Viva. Ao ouvir a excelente prestação do Sing Circle, no antigo refeitório dos monges, não pude deixar de pensar que se fundiam naquele momento três tempos diferentes. Parece de facto que "o tempo não pode ser separado do ser", como dizia Stockhausen a Jonathan Cott numa conhecida entrevista. Um primeiro tempo: o local. O antigo refeitório dos monges da Ordem de S. Jerónimo foi construido entre 1517 e 1518. Ouvindo 'Stimmung' naquele ambiente não me pude abstrair dos ecos do passado que emanam daquele local e da utilização original que teve. Imaginei os monges sentados, recolhidos, tomando as suas refeições acompanhados pela leitura, c...

Quase luto

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Acabo de ouvir a pianista Maria João Pires anunciar que vai viver para o Brasil. Com esta decisão chega ao fim o projecto Belgais. Tive a oportunidade de visitar Belgais e conhecer um pouco este projecto em 2003. O que ouvi e vi deixou-me um sentimento de empolgamento como há muito não experimentava. Belgais era um projecto sem paralelo. Maria João Pires justifica a sua saída do país com os "malefícios" que Portugal lhe estaria causar. Era quase a sua sobreviência física que estava em causa, afirmou. Agora a pianista vai para S. Salvador da Bahia onde irá criar um novo projecto na linha do que idealizou para Belgais. Esse, entretanto, sem ela por perto, irá certamente definhar e encontrar um fim sem glória.  É quase um sentimento de luto aquele que experimento neste momento. Foto: Coro de Belgais actuando no Coimbra Vibra! em 2003  

Escute!

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Escutar não vai curar o mundo, mas pode ajudar...

O ruído é do povo?

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Há cerca de vinte anos estive  profundamente envolvido na elaboração e implementação do Regulamento Geral sobre o Ruído. Todos nós, os que nos interessamos e lutamos por um ambiente mais equilibrado e, em particular, trabalhamos na área específica da comunicação e da ecologia acústica, nos congratulámos com o surgimento deste Regulamento. Significava um passo importante —susceptível de correções certamente— no sentido de criar uma comunidade mais civilizada em Portugal. Penso que o respeito pelo direito a um ambiente sonoro equilibrado é a bitola para medir o grau de civilidade de uma sociedade.  Na altura, o RGR foi alvo de uma série de críticas que, raramente, tinham algum fundamento ou legitimidade. Lembro-me. em particular, da reacção de um pateta, que mais tarde foi ministro da República Portuguesa, um dos políticos que mais “ruído” —aqui no sentido mais básico do termo, i.e., som sem conteúdo informativo, som incomodativo— consegue gerar. Escrevia a criatura no jorn...

Vidas perdidas

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H á quase 60 anos ia passar férias a uma quinta de uns amigos de meus pais. Passei hoje por lá. A foto mostra um caminho, junto dessa quinta, que percorri vezes sem conta durante as minhas brincadeiras. Está praticamente na mesma. A quinta fica a uns 50 quilómetros de Lisboa. A viagem na altura era uma odisseia para a qual nos tínhamos de preparar com tempo e cuidado. Apesar de não haver problemas de tráfego nesse tempo, os escassos 50 quilómetros demoravam uma eternidade a percorrer. Eu enjoava muitas vezes pelo caminho, graças às curvas e contracurvas. Não havia electricidade, na altura, por estas paragens. O dia começava e acabava cedo. A noite cerrada convidava a dormir. Ninguém ficava, obviamente, a ver o filme da meia-noite no cabo. Não havia cabo, não havia sequer rádio a pilhas nessa altura. O "transistor" portátil ainda demorou uns bons anos a fazer a sua aparição. Ninguém ficava, tão pouco, na cama até ao meio-dia. Os nossos ritmos estavam condicionados pela lu...

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