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Turismo Infinito

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De vez em quando temos a oportunidade de ver um daqueles espetáculos que nos agarram, sem um momento de abrandamento, sem quase termos tempo de respirar. Acontece. "Turismo Infinito" é uma produção do Teatro Nacional de S. João, superiormente dirigida por Ricardo Pais, que está manifestamente nesta categoria. Um espetáculo produzido a partir de textos de Fernando Pessoa (num trabalho notável de António M. Feijó) que demonstra, antes de mais, como se pode produzir um objecto teatral de luxo e de grande intensidade e densidade dramatúrgica, tendo sobretudo como matéria prima um enorme rigor e uma grande conjugação de talentos. Rigor e talento, aquilo que, simultaneamente, é necessário e falta a grande parte do teatro que se vai vendo por aí... Um destaque especial —que se justifica pela natureza particular destes meus "Fragmentos"— para o fantástico trabalho de voz dos actores e para design sonoro do Francisco Leal. Precioso!

Histórias Sonoras II

Tínhamos acabado a conversa anterior e acabáramos justamente de desligar o telemóvel. Eu tinha parado o carro num estacionamento em frente a uma esquina aqui no centro de Benavente. Qualquer coisa me suscitou a curiosidade na paisagem sonora desta minha nova terra ribatejana. Quando parei para prestar atenção ao que se passava, comecei a distinguir o som de um siringe , desses que os amoladores usam para anunciar a sua presença. Imediatamente localizei a fonte sonora. Mas, para meu espanto, havia outro! Dois amoladores aproximavam-se, provenientes de duas ruas diferentes, sensivelmente à mesma distância da esquina onde me encontrava. O amolador é uma espécie em vias de extinção. Consequentemente, o som do seu instrumento (o tal siringe ) já praticamente se não ouve nos dias que correm. Qual será então a probabilidade de apanhar um dueto simétrico de siringes , numa esquina de Benavente, que parecia escrito por um compositor invisível neste ano de graça de 2008, alguns segundos dep...

Histórias sonoras I

O meu amigo Fernando Mora Ramos telefonou-me a contar que tinha tido uma invulgar experiência sonora e musical. Junto à sua casa decorrem neste momento obras de construção de um enorme complexo hoteleiro. Passada a fase das retro-escavadoras, começaram as obras de cofragem. A "orquestra" mudou. Agora os "naipes" desta nova "orquestra" são constituidos por martelos, brocas pneumáticas, chapas de ferro e, também, vozes. Num determinado momento, um acaso "sincronizou" esta orquestra improvável, produzindo um resultado, imagino eu, para-musical...  Falámos sobre isto e eu recordei o trecho Lion Dance do histórico "Vancouver Soundscape" gravado na Chinatown de Vancouver. Foguetes misturam-se com os tambores produzindo num determinado momento uma sequência que parecia ter sido escrita por um compositor invisível. Jung era invocado pelos autores deste estudo hoje clássico. Coincidências improváveis # 1.

Karlheinz Stockhausen

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Quem seguir o percurso destes Fragmentos poderá pensar que estou aqui a fechar um capítulo. É possível. Acabo de saber que o compositor Karlheinz Stockhausen faleceu no passado dia 5 de Dezembro na sua casa em Kuerten-Kettenberg. Juntamente com Iannis Xenakis, John Cage e Luciano Berio foi um compositor cuja obra mantive e mantenho sempre à cabeceira, que marcou o meu próprio percurso musical. Há outros compositores que merecem figurar nesta lista (alguns deles ainda, felizmente, vivos), mas estes têm, para mim, de uma forma ou de outra. um lugar especial. Stockhausen era o sobrevivente deste lote. Recordo o absoluto fascínio que rodeou a minha descoberta da música de Stockhausen. Recordo o impacte que teve a minha primeira audição de, entre muitas outras obras suas, Gesang der Jüngling , Kreuzspiel , Momente , Gruppen , Carré , Kontakte , Kurzwellen , Prozession , dos Klavierstuecken , Mikrophonie (I e II) . Recordo a enorme influência que teve no meu trabalho Aus den Sieben Tag...

Uma nova orquestra

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Foi na passada quinta feira que a nova Orquestra de Câmara Portuguesa fez a sua primeira apresentação pública. Um projecto concebido e dirigido por Pedro Carneiro, destinado a dar um enquadramento ao mais alto nível, institucional e artístico, aos inúmeros jovens talentos formados nas escolas de música portuguesas. A OCP é o fruto do talento sem limites, da inesgotável capacidade de trabalho e da tenaz preserverança de Pedro Carneiro que juntamente com a sua equipa ergueu este projecto. É também o resultado do inultrapassável amor pela música que o Pedro Carneiro e os seus colaboradores demonstram. A OCP é uma obra de amor e o seu exemplo serve para mostrar, antes de tudo o mais, que em matéria de música, como em tudo o resto, é preciso amar para começar a fazer obra. Quantas pessoas amam verdadeiramente aquilo em cujo envolvimento se mostram empenhadas? À OCP ao seu director musical e à sua equipa eu desejo todas as venturas do mundo.

Tempo suspenso

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É a segunda referência a Stockhausen que faço num relativamente curto lapso de tempo (ver aqui uma outra nota na versão inglesa dos Fragmentos, sobre o 'Hymnen'). Falando de tempo, fui ontem ouvir 'Stimmung' de Stockhausen ao Mosteiro dos Jerónimos. Um concerto integrado na edição de 2006 do festival Música Viva. Ao ouvir a excelente prestação do Sing Circle, no antigo refeitório dos monges, não pude deixar de pensar que se fundiam naquele momento três tempos diferentes. Parece de facto que "o tempo não pode ser separado do ser", como dizia Stockhausen a Jonathan Cott numa conhecida entrevista. Um primeiro tempo: o local. O antigo refeitório dos monges da Ordem de S. Jerónimo foi construido entre 1517 e 1518. Ouvindo 'Stimmung' naquele ambiente não me pude abstrair dos ecos do passado que emanam daquele local e da utilização original que teve. Imaginei os monges sentados, recolhidos, tomando as suas refeições acompanhados pela leitura, c...

Quase luto

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Acabo de ouvir a pianista Maria João Pires anunciar que vai viver para o Brasil. Com esta decisão chega ao fim o projecto Belgais. Tive a oportunidade de visitar Belgais e conhecer um pouco este projecto em 2003. O que ouvi e vi deixou-me um sentimento de empolgamento como há muito não experimentava. Belgais era um projecto sem paralelo. Maria João Pires justifica a sua saída do país com os "malefícios" que Portugal lhe estaria causar. Era quase a sua sobreviência física que estava em causa, afirmou. Agora a pianista vai para S. Salvador da Bahia onde irá criar um novo projecto na linha do que idealizou para Belgais. Esse, entretanto, sem ela por perto, irá certamente definhar e encontrar um fim sem glória.  É quase um sentimento de luto aquele que experimento neste momento. Foto: Coro de Belgais actuando no Coimbra Vibra! em 2003