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Portugal de outra era (1)

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A vereadora Helena Roseta da CML criticou anteontem o facto de não haver um plano para combater o ruído na cidade. A crítica saúda-se e a preocupação pelo problema assinala-se. Afinal ninguém liga nenhuma a este assunto. E, contudo, o problema do ruído continua a ser apontado como a disfunção ambiental número um (não só em Lisboa!). Helena Roseta revelou numa conferência de imprensa, onde apresentava os resultados de um estudo feito sobre o "repovoamento" da cidade com novos habitantes, que “há quem desista de morar na cidade por causa do excesso de barulho.” Roseta critica o vereador do pelouro porque anda a “apresentar o mapa do ruído da cidade há dois meses, mas não tem plano de acção.” Repito: o alerta saúda-se e a preocupação assinala-se, mas tudo isto é escasso. Quando, um dia, algum responsável político (seja a que nível for, local, regional ou central) for capaz de se debruçar sobre o problema do ruído, demonstrar sensibilidade e compreensão pelo que está em ...

Une voix trés humaine

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O meu interesse pela viola da gamba tem-se intensificado desde há dois anos a esta parte. Desde que recebi a minha guitarviol —um parente afastado pode dizer-se— que tenho ouvido e estudado o instrumento com algum detalhe e ainda não perdi a esperança de vir a tocar uma viola da gamba genuina. Não vou competir com um Pandolfo, uma Hille Perl ou fazer sombra ao Fretworks, mas gostava de ter uma viola da gamba minha... Este instrumento não tem grande tradição em Portugal e os concertos são relativamente raros. A visita de um grande executante é pois uma oportunidadee que não se pode perder, nem que isso implique uma viagem relativamente longa. Para quem não conhece, digo-lhe que a nave do Igreja do Mosteiro de Alcobaça tem para cima de 100 m de comprimento, 20 m de largura e 50 m de altura. Não quero exagerar, mas o tempo de reverberação deve exceder bem os 15 segundos. Tudo parece grandioso neste espaço. Imaginem agora o pequeno foco sonoro, colocado sensivelmente a meio d...

Ruído em saldo

A propósito de ruído, ficámos a saber que o governo se prepara para diminuir o valor das coimas aplicadas a casos de infracção das normas ambientais. Exageradas ou mal calculadas, são algumas das justificações dadas para alterar o regime de coimas em vigor. O responsável governamental por esta área apressa-se a esclarecer que a “moratória” não tem nada a ver com o presente clima de crise financeira e económica. Que mensagem estará então o Estado a passar às populações? Que corromper o ambiente (finalmente) compensa...? Que atentar contra o ambiente era difícil, mas agora é mais “simplex”? No que respeita aos delicados mecanismos do ambiente sonoro já sabe: se tiver obras para fazer das 20 às 8 horas da manhã tem aqui a sua oportunidade de desgraçar, em definitivo e com desagravamento de custos, a vida dos seus vizinhos. Moer-lhes o juízo está agora em saldo. É aproveitar!

Decibéis? (2)

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Ainda a questão dos “decibéis”... Uma unidade é isto mesmo... UM! As unidades (metro, grama, ampere, newton, bel) são para todos os efeitos o equivalente a ... UM! As unidades têm o estatuto de um número. A expressão 10 m quer dizer “dez vezes 1 unidade que se convencionou chamar metro ”. Tem de ser lida DEZ METRO. Não existe matematicamente tal coisa como “metros”. Como não existem “doises” ou “dezanóves”. É tão absurdo dizer “cinquenta decibéis” como seria dizer dois “doises” para referirmos 2x2. Ignorar isto é triste, quando nos afirmamos “peritos” ou “consultores” em qualquer coisa. Deturpar isto e insistir na asneira, sobretudo se nos afirmamos “peritos” ou “consultores”, é bárbaro! O ar pomposo e taxativo com que os diversos linguistas consultados trataram a dúvida que coloquei sobre os “decibéis”, tanto no caso do programa “Cuidado com a Língua” como no caso do Ciberdúvidas, só revela uma coisa: ignorância.  Que é atrevida , como todos nós sabemos...  Ai de...

Decibéis? (1)

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Numa edição recente do programa "Cuidado com a Língua" da RTP, um actor referiu várias vezes a palavra "decibéis". Sempre pensei que as unidades não tinham plural. Quando muito —quando muito!—o plural de decibel (unidade de medida em acústica, electrónica, etc) seria decibels , embora mesmo isto me cheire mal. Referi o caso à produção do programa. Quando ouço falar em “decibéis”, confesso, fico com arrepios. Amavelmente, a produção do “Cuidado com a Língua” respondeu-me alertando para o facto de o Ciberdúvidas ter tratado duas vezes o tema. Como as respostas do Ciberdúvidas me suscitam sérias e legítimas dúvidas (sem ciber!) aqui deixo algumas considerações sobre o assunto.  1) Não sou perito em Língua Portuguesa, mas sou utilizador da unidade "decibel" por profissão. Trabalhei na área do ruído muitos anos e, embora esteja afastado dessa matéria neste momento, como sou músico, o decibel continua, hoje como sempre, a cruzar-se com o meu quotidiano p...

Por quem os sinos dobram

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Há mais de 20 anos trabalhei no departamento de ruído da então Secretaria de Estado do Ambiente (S.E.A.). Uma das áreas que mais preocupações nos dava era a das reclamações. Não se tratava de nenhuma brincadeira: o ruído era a causa principal de reclamação dentro da SEA. As consequências desta disfunção ambiental podem ser extremamente sérias. Desde problemas gravíssimos de saúde até casos de tentativa de homicídio (consumado, num caso ocorrido na Amadora), passando por desavenças entre vizinhos (por vezes até entre familiares!) que acabavam em tribunal, houve de tudo um pouco. Em dado momento começámos a receber um número crescente de reclamações relativas ao que foi classificado como "sinos electrónicos". O "sino electrónico" (descobri-o no terreno...) era um vulgaríssimo relógio de pêndulo, com um pequeno badalo, daqueles que se penduram na sala ou no corredor, que uns quantos espertalhões equipavam com um microfone barato, ligado a um amplificador, por su...

Serviço público

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Por feliz coincidência, os membros da equipa que montava a aparelhagem e o palco para um espetáculo que ontem decorreu aqui em Benavente, no âmbito das festas locais de verão, dispunham de uma unidade de rastreio auditivo gratuito, mesmo junto ao seu “local de trabalho.” Não sei se  algum deles teve a coragem de ir verificar o estado dos seus ouvidos. Pelo que ouvi quando passei pelo local, cheira-me que não iriam ter boas novidades... À semelhança do que se passa um pouco por todo o país nesta altura do ano, as festas desta pacata localidade transformam Benavente num completo pandemónio sonoro.  Por escape ou para dar um sinal de “força”, este tipo de festas constitui uma verdadeira imundície sonora que deixa marcas indeléveis em quem nelas participa, por prazer, em trabalho, ou em quem, simplesmente, foi apanhado no cortejo. Uma sugestão para o ano: aproveitem este tipo de unidades móveis de rastreio auditivo e promovam, por uma vez e a título experimental, a rea...