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Terry Riley, uma pérola em Portugal

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O compositor americano Terry Riley é um nome que dispensa (ou deveria dispensar) apresentações. Em Portugal o trabalho deste influente  compositor, agora com 75 anos, passou quase totalmente à despecebido (a única excepção parece-me ter sido a sua visita a Lisboa em 1995 para um concerto memorável no S. Luís, felizmente registado em CD.)  Podemos, no entanto, dar graças pelo facto de que o desinteresse luso se afigura não ter beliscado o prestígio e a carreira magnífica deste compositor. E Terry Riley há-de certamente estar grato aos portugueses por não ter, assim, sido particularmente prejudicado pela indiferença nacional... No blog vizinho destes “Fragmentos” encontrarão algo sobre o concerto em si.  Aqui limitar-me-ei a dizer que foi pena assistir a este magnífico evento, numa sala cuja lotação oficial é de 899 lugares, na companhia de menos de 90 pessoas. Ainda por cima, destas menos de 90 pessoas, algumas ainda saíram a meio, certamente por forma a não pertu...

Cascais, qualidade de vida e artilharia

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Um dia destes, há pouco tempo, de passagem pela minha terra natal, ouvi aquilo que me pareceu um ataque de uma brigada de artilharia pesada. Não seria de admirar porque Cascais foi sede de um regimento de artilharia anti-aérea. Mas, algo me pareceu estranho uma vez que o dito regimento foi desactivado há bastantes anos e a artilharia não dispara assim...  Fui ver.  Aproximei-me da “peça” que bombardeava a outrora pacata vila com todo aquele fogo de barragem. O fragor prenunciava batalha sem quartel...  Era afinal um ensaio de som —um sound check como dizem os peritos nestas coisas...— que decorria no palco das Festas de Cascais. O meu pequeno, mas, ainda assim, bastante preciso sonómetro marcava num instante de maior alívio dos ouvidos —enquanto eu preparava o meu equipamento a banda tinha optado por ensaiar o seu momento unplugged ...— 99.2 dB, como a foto mostra.  O assunto não mereceria grande reportagem se o dito ensaio de som estivesse a decorrer num...

Mas vamos ter submarinos, caraças!

Um "contexto de contenção orçamental e de redução da despesa pública" foi a justificação arranjada pelo Ministério da Educação para congelar as verbas atribuídas ao ensino da música, no âmbito do chamado ensino artístico . Trata-se de uma manobra feia, feita, como alguém me apontou, assim, pela calada do verão, que apanha toda a gente de surpresa e em contraciclo daquilo que tinha sido a orientação do ME. Nesta onda de disparar em todas as direcções e atacar os mais vulneráveis, os ataques também chegam à pobre da música que fica assim mais pobre ainda... A medida é tomada numa altura que não permite às escolas honrar compromissos assumidos em tempo oportuno, prejudicando essas escolas, os seus professores e alunos. E suspeito que, no caso dos professores, os mais prejudicados serão justamente os jovens licenciados que buscam uma oportunidade de se "inserir no mercado de trabalho", justamente aqueles por quem os responsáveis vertem lágrimas cínicas a toda a hor...

A rádio e os dias que correm

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Deixe-me ajudá-lo a “descodificar” a foto. Ia eu a caminho do supermercado, esta manhã, aqui na minha terra, e dou com esta cena: à porta de casa, aproveitando a sombra temporária, este senhor vai gozando, com a tranquilidade que a foto pretende documentar, a frescura da manhã. Tem um pequeno rádio pousado em cima da perna (ora repare; a foto foi feita a alguma distância para não perturbar muito a dita cena.)  Quem diz que a rádio morreu devia ter passado por aqui hoje. Para além de outras múltiplas funções, aqui está estoutra, quiçá inusitada, que a rádio cumpria de forma surpreendente, mas exemplar: banda sonora para um ensaio sobre a placidez. Praticamente não se ouvia (se calhar, nem ele...), mas, na altura, a canção que passava era “My favorite things”. Cantada pela Julie Andrews, mas podia estar a ser cantada por outro qualquer, incluindo o próprio senhor da foto.  Não haveria, por certo, outra canção que melhor pudesse ilustrar o sentimento que parecia tra...

O pingo

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”Encontros com o Património” é um esplêndido programa da TSF. Aconselho-o a quem porventura o não conheça. Uma das suas edições é dedicada à obra do arquitecto Raul Lino . Dá-se uma volta pela sua Casa do Cipreste em Sintra, de onde a emissão é feita. Fala-se do arquitecto, do grande e infatigável desenhador. Fala-se do desenho e do seu valor como “instrumento para ver”. Mas é o ouvido que aqui percorre os recantos da Casa do Cipreste, é o ouvido que recria as suas formas, que “vê” as cores dos seus azulejos, é o ouvido que vai desenrolando a sua planta. O sino dá o sinal de entrada na Casa.  De súbito, um pingo! Da pequena fonte há “uma água que cai”. “Uma influência árabe” para quebrar o silêncio, diz o sobrinho de Lino, anfitrião da emissão e actual morador. Ou, se calhar, para minorar a solidão, diz o autor do programa.  Em qualquer caso, uma pequena fonte concebida pelo arquitecto para “ter um ruído na casa”.

O pecado

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”No dia em que comerdes este fruto, nesse dia, morrereis”. Dizia, em alusão ao mito do pecado original, o personagem da Morte numa das falas de  O Lavrador da Boémia de Johannes Von Saaz. O texto esteve na origem do espetáculo Letra M . Lembrei-me desta fala ontem durante o concerto magnífico que o duo Le Celesti Harmonie deu na Igreja dos Salesianos. O ambiente era favorável a estes pensamentos... De facto, o prazer de ouvir Paolo Pandolfo e Guido Balestracci afigura-se tão grande que é um sentimento de pecado que nos parece invadir. Um pecado duplo, o nosso, cometido ali à frente de todos (e numa igreja ainda por cima!), e o do duo, que também não esconde o prazer que tem em partilhar connosco estas celestes harmonias.  Harmonias forjadas por François Couperin, M. de Sainte-Colombe, Captain Tobias Hume e Christoph Schaffrath, entre outros,  oferecidas por Le Celesti Harmonie para deleite e prolongada satisfação dos nossos sentidos. Numa demonstração cabal de que...

Ser dobrado pelos sinos

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O tema do ruído não chega amiúde aos orgãos de comunicação. E quando chega é normalmente através de uma perspectiva desinteressante e mal informada. Os sinos das igrejas são um problema recorrente (1). Os sinos constituem aliás um tema que ultrapassa (2) a questão ambiental —e talvez por isso o transforme num problema recorrente— e envolve disputas de poder com contornos bem mais profundos. Enquanto o problema do ruído se resumir à questão dos “decibéis ” (quando é que raio as pessoas entendem que esta palavra não existe?! Vejam aqui e aqui ...) os prevaricadores estarão sempre defendidos. É o caso relatado neste artigo do Público que foi retomado numa interessante crónica chamada “Música Electrónica” do Miguel Esteves Cardoso no mesmo jornal. Enquanto o cónego Aparício “aguarda uma peritagem” e o presidente da Câmara de Beja “dá conhecimento à Igreja do mal-estar” que os sinos provocam, as vítimas vão dobrando com os nervos esfrangalhados.  (1) Aqui há tempos esc...