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Cheira a primavera!

Não longe da cena do episódio da Rua Garrett, que mencionei no post anterior , subia eu a Rua das Flores, ouço e vejo ao longe uma garota de uns dez anos, mochila às costas, certamente a caminho de casa depois das aulas. Vinha descendo a dita rua, cantarolando exuberantemente, exprimindo, sem ambiguidades, uma enorme e notória alegria e felicidade. A vozita da miúda reverberava entre os prédios, ali mesmo à saída do parque de estacionamento do Largo Camões. Não me recordo há quanto tempo me não emocionava tanto com um acto tão simples, genuíno e espontâneo como este.

Música: um investimento de futuro

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Rua Garrett, Lisboa. Foi quinta feira passada, seriam umas 17h. Um duo de violino e violoncelo fazia escalas para aquecer. Iam começar o concerto. O mendigo, sentado logo ali ao lado, fazia sinais para os transeuntes, apontava para a boca, parecia querer dizer que tinha fome. Os músicos, impecavelmente vestidos, começaram a tocar. O mendigo, andrajoso, implorava ajuda. A música parecia acompanhar os gestos suplicantes do mendigo. Uma inusitada e súbita pareceira, ou um duro exemplo de um estranho, mas real, reality show .  Ao passar, ouvi um desses transeuntes a dizer para a mulher “ao menos aqueles fazem alguma coisa de útil”. “La musica è tutta relativa,” como lembrava Sanguinetti... E Vangelis dizia numa entrevista à Al Jazeera que “aquilo que mais precisamos no nosso mundo hoje é de investir em beleza.”  E eu aposto que, no fim da “temporada,” o mendigo vai abrir os olhos, juntar o dinheiro todo que ali obtém à custa do acompanhamento que arranjou para as suas...

“A senhora depois vê”

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“A senhora depois vê,” diz o operário corticeiro para a repórter. A senhora vai ver e vem-nos contar. Nós não vemos, mas ficamos a ver. Está tudo lá e vemo-lo melhor do que se estivessemos de facto a ver. Intriga-me este ver sem ver através da rádio. As reportagens da TSF, as de Maria Augusta Casaca e outras dos seus companheiros, são uma forma de desvendar o mistério; em suma, de aprender sobre este fenómeno que me continua a fascinar, de forma quase infantil, que é o contar por som. “ O País da Cortiça ” fala-nos deste mundo do sobreiro e da extracção da cortiça, em que Portugal dá cartas. É uma magnífica reportagem de Maria Augusta Casaca, com sonoplastia de Luís Borges. Neste caso, trata-se de uma reportagem que trata um tema que conheço bem porque, em tempos, realizei um pequeno documentário sobre ele, chamado “9 Anos Depois...”.  No caso deste “derby” audio-video devo confessar que fui goleado pelo audio!

"Conferência de Imprensa"

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Não me atrevo a fazer aqui “crítica” porque não tenho para isso as necessárias qualificações, mas, de vez em quando, gosto de trazer para este espaço dos Fragmentos um espectáculo, um concerto ou uma qualquer produção artística de outra natureza (veja o Arquivo se tiver paciência) que me tenham impressionado particularmente, que me tenham feito dar um salto na cadeira ou obrigado a sair do conforto da penumbra da plateia para mergulhar decididamente no que me é proposto. Não é crítica, é impressão de viagem...  Aproveito ainda com estas minhas notas de campo para destacar eventos que muito certamente a crítica, a verdadeira, a qualificada, ignorará decerto... Hoje foi um desses dias em que tive oportunidade de assistir a um espectáculo que me impressionou sinceramente, um desses que me causou sobressalto. “ Conferência de Imprensa ” é uma produção do SLTM/TNSJ, com texto e encenação de Alvaro Garcia Zúñiga. Estreou hoje. O texto inteligentíssimo e musical de Zúñiga (que tex...

Sons e silêncios

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No último post referi um texto de Paulo Varela Gomes na sua habitual coluna do Público “Cartas do Interior”. PVG é um autor com o qual me identifico (suponho que seja uma mistura de sintonia ideológica e geracional), com o qual partilho muitas ideias e é leitura imprescindível aos sábados.  Não me surpreende a qualidade da sua escrita e a renovada originalidade dos temas que aborda, mas quando pensava que neste domínio nada me conseguiria afastar desta expectativa cómoda a que me habituou, eis que uma série de artigos em que aborda, mesmo que de forma por vezes indirecta, um tema que me é particularmente caro —o som e o silêncio— me vem desassossegar .  Recomendo a todos os que se interessam por esta matéria a leitura da crónica de 19/11, justamente intitulada “Silêncio”, a de 26/11 (já referida no post anterior) intitulada “Angelus” e, finalmente, a de 10/12 intitulada “Tempos Mortos”.  Raramente os autores da minha área da comunicação acústica têm uma visão t...

Sobre os sinos

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Uma edição da série Encontros com o Património dedicada aos sinos. Chama-se “Os sinos - outros sons, outros tons” e constitui uma espécie de relatório do estado da arte sobre tudo o que diz respeito aos sinos em Portugal. Ouça aqui , é imperdível. Este programa surge, curiosamente, mais ou menos no momento em que Paulo Varela Gomes escreve na sua habitual crónica do Público um Angelus (“Cartas do interior”, 2011/11/26) sobre sinos. Fala num “tempo dos mercadores”, construído “à medida que deixamos de ouvir o som antigo dos sinos, que só aos velhos faz hoje semicerrar os olhos, baixar a fronte e suspender por um instante o vazio do tempo.” “Não há coincidências,” dizia-me um dia uma amiga muito querida. Este texto não poderia ilustrar melhor o programa da TSF. Não pode ser coincidência... NB- A foto que ilustra o post foi retirada de uma reportagem da RTP sobre a Fundição de Braga, uma das mais antigas fábricas portuguesas de sinos.

Ainda a Apple

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L er tudo aquilo que tem sido publicado sobre a morte de Steve Jobs e sobre a sua obra na Apple, não deixa de me dar, em certos casos, uma imensa vontade de rir. Lembro-me quando em 1983 (creio que terá sido nessa altura, não o posso confirmar com precisão) eu e o meu querido amigo Pedro M. Freitas nos deslocámos a uma loja que ficava ali para as bandas da Av. João Crisóstomo para ver uma novidade que me descreviam como "bombástica". Era o Apple Lisa . Lembro-me do Pedro ter imediatamente começado a sonhar com as possibilidades que um computador deste tipo oferecia para as suas arquitecturas e eu imaginava futuros sonoros que, não muito tempo depois, se começaram a poder concretizar, de facto, de uma forma sólida e acessível, graças à Apple. O sonho era possível para mim e para o Pedro. Continuamos irmanados nesse sonho. Lembro-me também que, nos tempos que se seguiram, muita desta gente que hoje tece loas a Steve Jobs, criticava a Apple por produzir computadores que pareci...