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Carta de um vírus em vilegiatura

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Genoma do do coronavirus, 2019-nCoV de Wuhan (Instituto Pasteur)   V iva, estou a falar-te daqui do meio do muco que enche os alvéolos pulmonares de um tipo qualquer — não faço ideia quem seja. É mais um. Não me consegues ver, mas eu vejo-te muito bem. Não me consegues ver, não nos consegues ver, mas nós estamos a ver-vos e somos muitos. Somos, aliás, cada vez mais. Vamos sendo cada vez mais. Graças a ti e à tua estupidez. Estamos a fazer exactamente aquilo que muitos de vocês fazem: a lutar pela sobrevivência, seja de que maneira for. Mas temos uma enorme vantagem sobre vocês. Tu, mesmo com os teus poderosos microscópios, mesmo com os teus sofisticados sequenciadores, não atinas comigo. Eu já te tirei o retrato. De corpo inteiro. E já percebi tudo o que me interessa sobre ti. Mesmo que, aparentemente, tenhas sobre mim a vantagem de uma vida mais longa e os recursos que resultam do carácter poliforme do teu organismo, não tens hipótese comigo. Nós fazemos rigor...

Sassaricando

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Uma das cornetas, colocada aqui numa rua de foliões, com o hospital em fundo B enavente é a sede do concelho onde resido vai para 13 anos. É uma vila pacata, cheia de gente muito boa.  Periodicamente, Benavente sai do seu torpor e faz-se ouvir. Quem ler isto perguntará: faz-se ouvir? O quê, faz ouvir a sua voz? Faz sentir as suas reivindicações? Vocaliza com veemência a defesa dos valores das suas gentes? Pugna sonoramente pelos seus direitos?  Não! Planta umas cornetas acústicas, dessas do tipo que se usa nas feiras, pelas ruas da vila e faz soar umas coisas a que podemos atribuir, com enorme dose de boa vontade, uma vaga parecença com música. Com isto azucrina os ouvidos dos fregueses, sem que estes tenham direito ao contraditório, i.e., sem escapadela possível. Esperemos que, cumprida a sua missão, esse material seja, entretanto, retirado mais rapidamente que o foram as decorações de Natal... Passar nas ruas de Benavente durante os períodos das “festas” (ac...

Um Túnel de Vento cheio de emoções

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T únel de Vento estreou no Festival Dar a Ouvir, edição de 2019.  Foi uma experiência invulgar, com um desfecho absolutamente extraordinário, que me deu ainda a oportunidade de revisitar velhas amizades e de juntar novas. Obrigado a todos os participantes.  As palavras que lhes dirigi, no fim, pecaram porque ficaram aquém da gratidão que sinto pela dimensão de excelência que deram a este projecto. Fica o compromisso de tentar repô-lo, o mais rapidamente possível, e de encontrar também outras formas de o manter presente. Obrigado a Alexandre Madeira. Obrigado aos coralistas do Coro D. Pedro de Cristo, obrigado especial a Cristina Faria. Obrigado ao Quarteto de Metais da Filarmónica União Taveirense, obrigado a Daniel Tapadinhas. Obrigado a toda a equipa do Convento de São Francisco, obrigado a José Carlos Meneses. Obrigado aos dois pássaros-actores Alexandre Cotrim e Catarina Francisco. Obrigado a todos os que vieram assistir e nos encheram o coração com a sua presença, ...

Túnel de Vento

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S e há algo que verdadeiramente nos une, a nós e à generalidade dos seres vivos na Terra, é o ar. O ar, esta mistura de gases que preenche todos os espaços do mundo que nos rodeia, alimenta a vida e a faz, literal e metaforicamente, mover. O ar, o fluído vital que assume diferentes formas e representa diferentes papéis. Pode ser o sopro primordial da vida do bebé, mas também a grande massa que se desloca de um ponto para outro do globo, levando tudo consigo nesse movimento. Pode ser o ar que sustém o voo delicado da ave ou a poderosa força motriz que produz a energia eléctrica que sustenta uma cidade inteira. O ar, que está presente no fôlego dos músicos, no voo dos pássaros, na voz dos cantores, no rodar das velas dos moinhos, no ondular das brisas e no poder das rajadas e dos ciclones. O Túnel de Vento é um projecto integrado no programa de 2019 do Dar a Ouvir que, ao longo de um percurso pelos diferentes espaços do Convento São Francisco (CSF), evoca e celebra as v...

Um manifesto sobre o essencial

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N uma análise, talvez simplista – mas quem sabe se a verdade não é, afinal, mais simples do que parece... –, eu dividiria as pessoas entre aquelas que agem, criam cruzamentos entre as suas acções e as dos outros, mantêm um permanente registo dessa dinâmica, juntam novas acções, fazem novos cruzamentos e sabem, a todo o momento, extrair o essencial de todo esse complexo diálogo. E há as outras. Aquelas que vêem a realidade como bolinhas de sabão. A bolinha forma-se, o olhar fascinado é atraído por ela, o olhar segue-a, a bolinha passa, a bolinha rebenta, venha outra. Este sábado, a Associação dos Antigos Alunos do Liceu Nacional de Oeiras/Escola Secundária Sebastião e Silva apresentou o segundo volume de "o Liceu". Mais um olhar sobre os anos daquela escola, por também eu onde passei, sobre os seus métodos, os seus alunos, os seus professores. A António Sampaio da Nóvoa, um condiscípulo do LNO, coube fazer a apresentação deste segundo volume. Da sua rica intervenção...

Acasos felizes que geram ECOS

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U ma experiência extraordinariamente positiva é como posso classificar este ECOS (versão Coimbra), que estreou no passado sábado 23, na emblemática Praça do Comércio. É a úlltima obra que escrevi, uma peça para seis percussionistas e seis pistas electrónicas, que funciona a três níveis. Os músicos e os altifalantes dispõem-se em volta do público, em dois círculos ou elipses (conforme a natureza do espaço) concêntricos. Existe, em primeiro lugar, uma partitura, escrita da primeira à última nota, a ser executada por cada instrumentista, que dispõe para o efeito de um pequeno conjunto de instrumentos de percussão. Os 6 instrumentistas executam as suas partes de forma articulada com as 6 pistas, que contêm o material sonoro de origem electrónica. A peça é dedicada a R. Murray Schafer, um dos meus grandes inspiradores de há longas décadas. De certa forma, ela evoca — pelo local onde teve lugar e pela própria ideia fundadora — o projecto que levámos a cabo juntos, há 15 anos, o Coimbra V...

Tocar

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E m música, usamos a palavra tocar com significados diversos. Dizemos que tocamos um instrumento ou que tocamos numa orquestra, por exemplo. Mas tocar, em música, é sobretudo atingir alguém com ela, penetrar com os sons no mais profundo, no mais íntimo da sua alma. Na verdade, nem sabemos muito bem que parte do eu estamos a atingir, quando tocamos alguém com a nossa música. Mas sabemos que estamos a atingir um centro qualquer, vital. Verdade seja dita que, no dia que souber como tudo isso acontece, deixo de fazer música... Tocar em alguém com música não tem figurino, modelo ou horário. Pode acontecer da forma mais inesperada, com os meios mais sofisticados ou da forma mais singela. Acontece a este e a oeste. De dia ou de noite. Podemos estar sozinhos, em frente da fonte da música, a ouvir solitariamente um disco, Podemos estar acompanhados por milhares, integrados num qualquer ritual colectivo. Tocar por música não envolve contacto entre as dermes. É uma espécie de sintonia entr...